A Última Morte de Ciannor Ravorak – Parte 1

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A Última Morte de Ciannor Ravorak

Sinopse

Os Portões de Raskanigr – Parte 1

Era meio dia e vida se esvaia em sangue e suor aos portões de pedra negra de Raskanigr.

Ciannor Ravorak sentia os músculos cansados se agitarem a cada nova investida do aríete com o qual tentavam violentar os portões da prisão-fortaleza. Já estavam há algum tempo ali, ele e seus homens, embora não tivesse certeza de quanto tempo realmente se passara.

Dentro do que lhe importava no momento, aquela era a primeira vez que participava do assalto a uma fortaleza, assim como também era a primeira vez da maior parte de seus irmãos. Imaginou que seria tomado pela fúria, que naquela onda de violência, cercado de morte e sofrimento, se entregaria ao torpor de batalha. Ao mesmo frenesi sanguinário que lhe capturava durante um combate e que construíra muito de sua fama como herói.

No entanto, ainda que com sua parte do peso do arrasa portões sobre os ombros, mesmo com seus velhos ossos sofrendo com o choque do encontro entre ponta de madeira endurecida do aríete com a barreira de pedra enfeitiçada que barrava-lhe o destino e a glória, sua mente estava sã. Ainda conseguia encontrar as palavras que em sua época de escriba, naquela mentira em que vivera, usaria para florear o discurso dos ricos e com os nobres.

Mais do que agitar-lhe o sangue, era como se o constante e violento vai-e-vem, em que seus homens dedicavam corpo e alma para derrubar o portão, lhe trouxesse apenas o estupor de lembranças antigas.

Surpreendeu-se com como, mesmo naquele inferno, podia se perder em ecos tanto do passado que outros tentaram eliminar, quanto do pretérito que ele mesmo gostaria que nunca houvesse existido. Contudo, no limiar de sua audição, Ravorak conseguiu ouvir um ruído em uníssono, um berro de várias gargantas trabalhando em conjunto, para então sentir um novo baque. Madeira comum contra pedra e feitiçaria.

A nova rachadura que subiu serpenteando o corpo do aríete foi o que lhe arrancou das reminiscências do seu passado de mentira. E então tudo ao seu redor voltou a ser violência, exaltação e um mar de barulhos ensurdecedores que se espalhava como ondas.

– Força, camaradas! – gritou mais alto do que tudo o que podia ser ouvido – A Alvorada Sangrenta retorna e conosco virá primeiro a queda de Raskanigr, depois a queda do próprio imperador!

Todos os seus homens rugiram em concordância e selvageria. O aríete martelou o seu alvo com mais afinco daquela vez. Mais óleo fervente choveu da fortificação. Houve mortes, e também homens e mulheres que, queimados e feridos, continuaram a lutar e morrer.

A primeira barreira da prisão-fortaleza não chegou a tremer.

Era meio dia e vida se esvaía em sangue e suor aos portões de pedra negra de Raskanigr. Chovia fogo e morte sobre os rebeldes da Alvorada Sangrenta e Ciannor Ravorak, seu líder e herói, ordenara o ataque.

Seus olhos estavam plantados no portão, ferozes, decididos. Mas sua mente estava em outro lugar, se concentrava no pequeno grupo que escalava as muralhas pois, sabia Ravorak, ele e seus homens nunca arrombariam o portão.