Lealdade e Império – Parte 2

Esta é uma pequena história passada em Lenda dos Cinco Anéis que estou escrevendo, uma fanfic, se preferir o termo. Ela se passa depois da cronologia atual do Card Game, aproveitando as ideias do que seria a Onyx Edition, onde Daigotsu Kanpeki e o Clã da Aranha, com a ajuda do Jigoku, entraria em guerra com Rokugan.

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Parte 1

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Lealdade e Império – Parte 2

— Nitoshi-sama, o duelo acabou. O Imperador está morto.

Mesmo sendo um orgulhoso Escorpião, o mensageiro quase não conseguiu cumprir o seu dever sem gaguejar em meio às palavras. Não houve auxílio da parte Bayushi Nitoshi, este demorou-se para liberar do seu escrutínio, mas a verdade é que, mesmo sabendo o destino de Iweko II no instante em que foi declarada a intenção de um duelo,o Campeão do Clã Escorpião demorou-se em pensamentos, tentando apreender a informação. De fato, aquela era uma notícia esperada, mas ainda assim tão terrível que chegava a ultrapassar o curioso e, principalmente, inquietante distanciamento com o qual Nitoshi parecia encarar o mundo.

Seu olhar estava pousado no samurai que viera lhe entregar as notícias, mas os pensamentos do Campeão vagavam distantes. Para Bayushi Tetsuro esta reação de seu senhor era mais assustadora que as forças profanas do inimigo.

— Nitoshi-sama, — disse Tetsuro, libertando o Campeão daquele transe carregado de desesperança — devo levar à frente os planejamentos para o combate?

O olhar do Campeão se desviou do mensageiro e este se afastou tão rápido quanto um samurai se arriscaria sem comprometer a própria honra. A apatia no rosto de Nitoshi era a mesma de todos os outros momentos, mas nas últimas semanas Tetsuro havia adquirido a capacidade invejável de notar as estranhas nuances nos modos distantes de seu senhor.

— Diga-me, Tetsuro-san. O que poderia ler sobre o futuro deste combate? — Perguntou Bayushi Nitoshi ao shireikan. Apesar da máscara que cobria a boca e o nariz do campeão, seus olhos sorriam. Era um sorriso sem alegria, invocado por sentimentos alienígenas aos homens comuns.

O exército inimigo avançava havia várias semanas, mas, precisando combater em diferentes fronts, a logística havia tornado impossível as forças do Império se reunirem para aquela batalha. Não haveria combate, haveria apenas a matança de forças desconexas e a Aranha teria um caminho livre até os shugenjas de Rokugan que tentavam abrir os portões do Tengoku. Havia sido apenas o sacrífico do próprio Imperador que, desafiando Daigotsu Kanpeki para um duelo, conseguira o tempo necessário para os Clãs organizarem a defesa do Rio de Ouro.

Talvez fosse sacrilégio dizer que Iweko II caminhara para um suicídio, mas era um fato que não havia como o filho da Escolhida vencer um Kanpeki transformado e auxiliado pelas forças negras do Reino do Mal. Não havia necessidade do líder da Aranha aceitar o duelo de Seiken, mas o Imperador Iweko II sabia que o orgulhoso inimigo não rejeitaria a oportunidade. Os dois dias de preparação para o duelo deram o tempo necessário para os Clãs. O custo fora muito alto e as promessas futuras não eram suficientes. Mas era tudo o que tinham.

Tetsuro endureceu a alma e não se desconsertou frente aos modos inquietantes de seu senhor. Ainda assim, aquela era uma pergunta que não gostaria de precisar responder. Não precisaria, em outras circunstâncias, afinal aquele era o papel de seu rikugunshokan e estava além de seu direito tomar o dever de um superior.

— Nitoshi-sama, meu parecer não seria digno de seus ouvidos. Sinto que não poderia responder a esta pergunta melhor do que meu rikugunshokan.

— E ainda assim, o dever de um Escorpião é fazer o que for necessário.

Poucos cortesões poderiam encontrar as palavras adequadas para negar o pedido do Campeão de seu Clã. Neste aspecto, Tetsuro era apenas um bushi. Descedente de Bayushi ou não, sua arma era mais a espada do que palavra.

— O inimigo virá — começou o shireikan. — O duelo de Kanpeki com o Imperador conseguiu-nos momentos preciosos para organizarmos nossas tropas. No entanto, nossas forças não poderiam estar mais desfalcadas. O Caranguejo era necessário aqui.

— O Caranguejo é necessário no oeste — Nitoshi corrigiu. — São a única coisa entre nossas forças e uma horda de onis ainda mais letal do que as tropas de Kanpeki. Hida Kisada foi pessoalmente ao combate. Não contará com a sabedoria de Renyu, infelizmente. O damiyo da família Kuni foi vitimado por assassinos.

Tetsuro havia ouvido falar da morte de Kuni Renyu. Apenas uma das muitas mortes sinsitras que acometaram o Império nos últimos meses. Dizia-se que desde que o shugenja se fora, o cachorro de Renyu seguia Kisada para onde ele fosse, como se buscasse honrar o dever de seu falecido dono: aconselhar e acompanhar o Campeão do Caranguejo.

— Não poderia ser mais verdade, Nitoshi-san. Mas a tenacidade do Caranguejo seria vital em nossa situação. Estamos na margem norte deste ponto do Kawa no Kin e não seremos nós a avançar, mas resistiremos à carga da Aranha e das monstruosidades que Kanpeki lançará sobre nós. Por um tempo. Guerreiros como os Hida conseguiriam conter o avanço do inimigo, já prejudicado pelo rio, com uma ferocidade incrível.

Nitoshi apertou os olhos, olhando em direção à mancha negra na margem oposta do Rio de Ouro e Tetsuro acompanhou o seu olhar. Ao invés de samurais valorosos, eram os ashigaru que receberiam o primeiro ataque do inimigo. Meros heimin, teriam que resistir contra os combatentes da Aranha. Resistir contra homens, mulheres e monstros auxiliados por magias negras e sortilégios sombrios cedidos por Daigotsu ao exército de seu filho. E aquela mácula aracnídea, um exército de traidores, já começava a avançar em direção ao Rio.

— Esse não será um combate ganho por força bruta e tenacidade, Tetsuro-san. — Disse Nitoshi com mais frieza que um homem normal poderia reunir — O destino do Império será decidido por covardia e desonra.

— Nitoshi-sama?

O Campeão do Escorpião olhou mais uma vez para o comandante.

— Ora, Tetsuro-san. O Leão, o Unicórnio e o finado Imperador acreditam que a única forma de vencermos esta contenda era nos mantermos íntegros e honrados. Os tolos declamaram sobre como triunfaríamos apenas nos mantendo firmes sob os valores de nossos ancestrais. Não percebem ou não querem admitir que no momento em que decidimos recorrer ao Tengoku para sermos vitoriosos, já abandonamos toda noção de honra. Ao invés de vencermos nós mesmos, deixamos que a Fênix buscasse trazer o próprio Firmamento para Rokugan apenas para que pudéssemos sobreviver.

Nitoshi sorriu com os olhos. Um sorriso perturbador. Bayushi daria a vida para defender seu Campeão, mas naquele instante foi como se Nitoshi gostasse de todo o caos e desespero que acometia o Império. Era como se de alguma forma estivesse feliz por toda destruição que acontecera, por terem chegado naquele momento fatídico onde uma única batalha decidiria não só o destino do Império, mas de toda existência.

— Não. — continuou o Bayushi Nitoshi — Não há mais honra. Há apenas o dever. O dever de fazer o que quer que seja necessário para impedir que Kanpeki chegue até o portal para o Tengoku antes que o ritual se complete. E para isso, não iremos perder, pois antes do fim até a própria Dairuko, que lidera o Leão, irá atacar pelas costas, sem honra e sem glória, para impedir que o Jigoku domine toda a existência.

Tetsuro não concordava de todo com as palavras agourentas do seu senhor, mas o que ele dizia não estava longe de ser verdade. Dada a força que Kanpeki reunira e contando a divisão do exército do Império, um confronto tradicional e honrado traria desgraça para toda existência. Boa parte da estratégia formulada para aquele combate se baseava nas Garças de Ferro, que auxiliados por magia dos shugenjas Asahina se escondiam embaixo das águas do Kaia no Kin e nas tropas irregulares do Escorpião que atacariam com explosivos de pólvora em locais que causariam maior quantidade de atrasos e confusão e então recuariam.

Apesar da presença dos ashigarus, justificada apenas por uma questão débil de tradição imposta por Iweko II e Akodo Dairuko, os modos do Império haviam sido abandonados no momento em que destruíram seu próprio solo das praias Daidoji até aquele ponto, numa desesperada tática de terra arrasada para retardar o inimigo e sacrificando o que fosse necessário por cada segundo conquistado.

De fato, não havia como eles vencerem ali, naquele combate. Eram poucos comparados às forças que a Aranha reuníra e muitos pereceriam nas mãos do sem número de criaturas sinistras e samurais perdidos que agora seguiam a Kanpeki. Lutavam para ganhar tempo para a Fênix e seu ritual de trazer o Tengoku ao Ningen-do, de manterem-se em pé até o instante glorioso em que os celestiais e seus antepassados mais ilustres marchassem sobre o exército do filho do Jigoku.

Tudo isso Tetsuro pensou enquanto observava aquela mancha negra de cor e negra de alma começar a se espalhar pela planície que se espreguiçava para além do rio. Aquela horda inexorável que se avolumava em fúria e desejo de morte, um exército maligno que morreria mais do que mataria, mas que como onda inexóravel, como o tempo avança sobre os homens, seguiria em frente sem perder a força até que não restasse guerreiro algum do Império.

Foi quando havia começado a abrir a boca para responder à Bayushi Nitoshi que notou a convulsão na mancha inimiga. Vários pontos pretos se destacaram daquele mar de vilania e alçaram aos céus. O exército da Aranha ainda estava longe do rio, mesmo os ashigarus da dianteira não conseguiriam enxergar as feições, ou mesmo o equipamento dos homens e criatura que tomavam a dianteira da horda antagonista. Mas os terrores alados avançaram mesmo assim, muitos desviando-se de feitiços dos poucos shugenjas e das flechas rokugani.

—  Desonra. Trapaças — Disse o Campeão do Escorpião como que em uma espécie de transe.

Tão logo as monstruosidades atravessaram as fileiras dos arqueiros, que estavam logo atrás dos ashigura, baixaram seu vôo e foi possível distinguir-lhes as feições. Criaturas horrendas elas eram, de pele escura, asas coriáceas e garras laminadas. Seres paridos pelas Terras Sombrias que ainda não haviam combatido os samurais do Império.

Com assombro — mas sem medo —, Tetsuro vislumbrou aqueles corpos delgados de agilidade impar, que continuavam esquivando e bailando no ar, girando o corpo em sua descida para aumentar sua velocidade.

Em algum ponto, os monstros se dividiram em pleno ar, em trios buscando sessões diferentes do exército rokugani. De início, o shireikan não entendeu o que aquela estratégia buscava alcançar, mas assim que percebeu os inimigos cruzando os soldados do Escorpião, desviando dos projéteis disparados pelos arcos Tsuruchi e dilarecendo quem encontravam em seu caminho, ele sacou sua espada para a defesa.

O comandante imaginou, não sem razão, que aqueles estranhos seres alados haviam sido enviados para causar confusão entre as fileiras, gerar uma onda de caos que deixaria as forças do Império vulneráveis a um ataque súbito e devastador. No entanto, de espada já em punhos e se preparando para o combate, sentiu que havia algo de estranho naquela prévia da batalha.

Kanpeki sabia que não era seria trivial quebrar as fileiras de samurais bem treinados, e certamente aquelas três criaturas, por mais atrozes e perigosas que fossem não conseguiriam inflingir dano considerável apenas se lançando de frente contra as tropas. Não era a melhor forma de utilizá-las. Nunca seria. E por mais mais que Tetsuro não quisesse ceder elogios ao inimigo que traira seu Imperador, não podia deixar de ter certeza que o filho do lorde negro das Terras Sombrias tinha ciência da estratégia e da tática avançada.

Foi portanto com um crescente sentimento de urgência que ele desviou os olhos do inimigo que voava vários metros à frente, onde as linhas começavam e o grosso dos soldados se concentravam, e procurou enxergar além do que o inimigo queria que ele visse.

Olhou para longe. Para as forças da Garça e do Leão — os outros dois clãs que se apresentavam em toda sua glória — e para as fileiras da Fênix e do Unicórnio, menores, devido aos interesses e tarefas que dividiam esses Clãs. Rapidamente o shireikan percebeu que os monstros alados não haviam se disposto de forma a atacar grande quantidade de soldados. Haviam se dividido para rumarem para as forças de cada clã presente, além dos batalhões da Legião Imperial.

E então percebeu o engodo, percebeu o objetivo.

Não sem certo desespero, Tetsuro voltou-se para o seu Daimyo — que contemplava o ocorrido com um esboço de sorriso — e então olhou novamente para os inimigos. Neste momento, viu uma das criaturas se lançar sobre o solo com um estrondo, combatendo ferozmente os guerreiros à sua volta, mas sabia que era para as outras duas que devia concentrar a sua atenção.

O shireikan não se surpreendeu quando os outros dois monstros passaram seu rasante sem mais incomodar as fileiras, no entanto temeu que não fosse rápido o suficiente.

Antes que pudesse gritar, as criaturas já estavam sobre ele e Bayushi Nitoshi. Se houve surpresa ou não para o Daimyo dos Bayushi, Tetsuro não havia como saber. Mas tão logo os monstros buscaram flanquear o Campeão do Clã das mentiras, voando em conjunto como se fossem uma pinça, ele já estava atirando uma saraivada de shurikens contra um dos inimigos.

Tetsuro viu quando o Campeão desviou-se como que entediado do cadáver de um dos monstros, que caía em sua direção crivado de projéteis revestidos a jade. Mas ainda havia o outro. E não havia tempo.

Deixando o decoro de lado e presenteando o dia com um poderoso kiai, Tetsuro trombou contra o seu daimyo. O Campeão foi projetado para longe. Rolou no chão e se levantou. Para ele nada havia acontecido.

Quanto a Tetsuro, recebeu de frente a carga do monstro alado que ajeitara o seu vôo para alcançar Nitoshi. A katana do samurai perfurou a barriga do monstro, vitimado por seu próprio peso e velocidade. No entanto, não estava acabado aquele vôo. Tetsuro preparou-se para ser arremessado para trás, no entanto não estava pronto para alcançar os céus. Preso pelas garras de um monstro moribundo, Tetsuro sentiu seus pés se desprenderem do chão.

À distância, outras criaturas voltavam ao seu vôo. Algumas delas também carregavam vítimas

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