O que Aconteceu com os Zumbis? – Bogleech no Dados

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(Esse artigo foi traduzido do site bogleech com a autorização de Jonathan Wojcik. A versão original se encontra disponível nesse link.)

Acredite ou não, havia um tempo em que ser um morto-vivo podia significar algo horripilante. Algo bizarro, hediondo, impossível e digno de pesadelos. Algo aterrorizante em grandes números, sim, mas igualmente assustador sozinho. Uma vasta categoria de monstros vis, gosmentos e mutilados abrindo caminho a garras e tropeços das suas tumbas em busca da carne quente, suculenta dos vivos. Às vezes nem todo poder de fogo do mundo era capaz de pô-los de volta à terra. Eles eram assustadores só por existir, não importando se eles corriam ou tropeçavam. Eles não eram limitados pela lógica cientifica, e nem sempre se restringiam à forma humana. Esses eram os zumbis de verdade. Os zumbis dos zumbis. Zumbis como O Tarman. Vamos falar sobre ele primeiro.

Esse rastejante gosmento do filme de 1985 A Volta dos Mortos Vivos costuma ser citado como um dos maiores zumbis cinematográficos de todos os tempos, e é fácil entender porquê. O Tarman é tão horrivelmente pútrido, tão inquietantemente encenado que sua fama supera até mesmo uma garota punk zumbi nua do mesmo filme. Chega a ser fácil esquecer que há uma pessoa de verdade por trás de todo esse muco gotejante, mas a verdade é que estamos vendo apenas o talento de Allan Trauntman dentro de alguns centímetros de látex. São esses movimentos de marionete que realmente fazem a performance, verdadeiramente comunicando que essa coisa não deveria estar de pé e se mexendo, mas aqui está ela, fazendo exatamente isso, sua carne enegrecida pendendo em filamentos longos e gosmentos de seus ossos brilhantes.

Vinda do mesmo filme, essa meia-zumbi sexy (aviso de peitos mofados, caso você esteja no trabalho) é outro clássico, pouco mais que um fantoche e ainda convincente como sempre. E por que ela não seria? Nós não esperamos que algo morto se mova, ainda mais como se fosse uma coisa viva. Um zumbi cinematográfico fica mais assustador com movimentos limitados. Ainda no Retorno, nós veríamos os efeitos da não-vida em esqueletos, membros cortados, cães dissecados e em uma coleção de borboletas.

O relativamente corriqueiro filme de 1988 Dead Heat explorou ainda mais possibilidades dos “deficientes vitais” com uma das mais legais, porém menos conhecidas cenas de horror da época – um açougue inteiro pulando de volta para a vida, de galinhas depenadas ao que parece ser um fígado saltitante. O resto do filme mostrou apenas morto-vivos convencionais, humanoides, mas se isso foi porque a equipe de produção estourou o orçamente nessa cena, eles fizeram a escolha certa.

Carniceiros similarmente medonhos estrelaram o filme de 1992 Fome Animal do diretor Peter Jackson, incluindo um dos meus mortos-vivos cinematográficos favoritos, uma pilha rastejante de entranhas. Apensar de não serem tão imparáveis quanto os cadáveres de O Retorno, esses zumbis podiam ao mesnos continuar causando problemas até serem praticamente liquefeitos, apenas tomando formas mais e mais bizarras e hediondas a medida que eles levavam dano. Nós até vemos os resultados horrendos (mas posteriormente hilários) da reprodução zumbi, e uma nauseante monstruosidade “final boss” que eu não vou estragar para aqueles que ainda não viram esse filme.

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Eu poderia continuar, mas vamos voltar ao assunto: zumbis estão estagnando, e não da forma que ia ser legal de ver. O mortos-vivos podem assumir uma miríade avassaladora de formas. Formas que não deveriam estar vivas, mas ainda se movem, contra toda razão, em uma parodia distorcida da ordem natural, e não é preciso muito mais que um fantoche para executar essa imagem de uma forma crível, enervante. Porque, então, nesse mundo moderno de computação gráfica espalhafatosa e efeitos especiais multimilionários, porque tantos zumbis cinematográficos são indistinguíveis de gangues capengantes de bêbados feridos? Até mesmo alguns videogames, são culpados dos mesmos rastejadores sem inspiração de sempre; meio pálidos, um pouco ensanguentados se tivermos sorte, inteiros e frequentemente como seres vivos saudáveis, energéticos.

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Recentemente, a Ubisoft estava trabalhando em um jogo que prometia ser uma homenagem carinhosa a filmes como Gremilins e Critters. Sério, olho para esse merdinha fofo! Quem não ia querer jogar um jogo onde adoráveis homens-lagartos-bebês saíssem por ai comendo gente? Finalmente, algo novo e diferente no survival horror!

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… Só que não. Killer Freaks from Outer Space acabou sendo reciclado em “ZombieU”, e seus pequenos assassinos reptilianos foram substituídos por mais uma leva batida de mortos-vivos feijão-com-arroz. Quem diabos continua comprando essas coisas?

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Se é para ficar jogando pilhas de zumbis na gente, ao menos tenha a decência de torna-los arrepiantes. Essas múmias reais são mais inquietantes de se olhar que até mesmo alguns dos melhores zumbis na minha memória, e olhe que eles nem precisaram de efeitos digitais. Imagine se movendo, mesmo que só um pouquinho. Mesmo que como marionetes. Se isso não te perturbar mais que o bando lamuriante de “Walkers” ou “Infectados” de costume, então você provavelmente já está morto. Possivelmente porque umas dessas múmias sem olhos te abriu ao meio na calada da noite e tentou substituir os órgãos perdidos dela pelos seus. E agora você é uma delas, e assim que terminar de ler esse artigo (e curtir nossa página no facebook, já que você é uma abominação morta-viva gente-fina), você vai sair em busca de um novo conjunto de entranhas. Acontece.

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Até médicos e cientistas criam rotineiramente carniceiros mais assombrosos do que qualquer coisa capengando em telas eletrônicas nesses dias – em alguns casos antes da invenção dos filmes. Essas carcaças infantis são o trabalho de Honoré Fragonard, um professor de anatomia do século XVIII que se voltou para o mundo da arte quando seus métodos “loucos” lhe custaram sua carreira acadêmica. Seus métodos de preservação permanecem um mistério relativo, assim como o paradeiro da maioria das suas criações. Temos aqui um cenário mais horrível — e fascinante — que o “Apocalipse Zumbi” típico, e olha que esses caras nem tiveram que sair andando por aí. Ainda.

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A exposição itinerante “Body Works” demonstra ainda mais a incrível variedade de belas formas alienígenas escondidas na anatomia dos falecidos.  Aqui, temos um cabeça humana completa, partida ao meio para mostras as várias camadas de tecido e osso protegendo os nossos cérebros. Você vê uma forma alada também, não é? Você já está imaginando essa face descascada voando como uma mariposa molhada, carnosa no escuro, ansiosa para se fechar sobre sua cabeça, abrir seu crânio e sugar seus conteúdos. Não? Bem, agora você está.

A plastinated human head is seen during the opening of the exhibition "Koerperwelten" (body worlds) of German professor of anatomy, Gunther von Hagens, in Heidelberg, southwestern Germany, on Friday, Jan. 9, 2009. The exhibition runs from Jan. 10 until April 26, 2009. (AP Photo/Daniel Roland)

Se zumbis se alimentam da carne dos vivos, e os vivos viram zumbis quando são mordidos, então não faria mais sentido que a maioria dos zumbis se parecem mais com esse cara do que com os mendigos sujos que a cultura pop continua a insistir que nos tememos. O que houve com os globos oculares pendentes? Aos intestinos sendo arrastados? Às faces meio devoradas e à carne mofada e gangrenosa?

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Ainda pior dos que suas estéticas caídas, histórias de zumbis continuam as reforçar um conjunto de “regras” estabelecidas pelos autoproclamados “puristas” do gênero, especialmente o velho “atire na cabeça”. Sabe o que mais more quando você atira no cérebro dele ou a arranca sua cabeça? Tudo. Foi por isso que o já mencionado A Volta dos Mortos Vivos fez questão de ignorar o que já era um clichê entediante em 1985.

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No mundo dos videogames, foi basicamente a franquia Resident Evil que trouxe os zumbis de volta à moda, é eles souberam quando era a hora de trocar a fita. Meros zumbis sempre foram apenas um aperitivo dos horrores que apreciam durante o avanço de cada jogo, e os jogos mais recentes abandonaram completamente mortos-vivos tradicionais em prol de parasitas cerebrais antigos, quase lovecraftianos (como as Plagas acima), monstruosidades vindas do fundo do mar e híbridos insetoides. Enquanto isso, as adaptações de Residente Evil para o cinema nos deram basicamente zumbis, zumbis grandes, zumbis um pouco esquisitos, mais zumbis e cães zumbis. No longínquo ano de 2004, quando eu por alguma razão fui ver o segundo filme da serie no cinema, eu fiquei aliviado em ver ao menos alguns Lickers, e ainda me lembro vividamente do absolutamente confuso “Mas que porra é ESSA?” vindo de um noob do universo Resident Evil. É isso que todo filme de monstro deveria fazer alguém dizer.

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A culpa dessa homogeneização repetitiva está, como tantas outras coisas da nossa cultura popular, nas mãos das pessoas que continuam jogando dinheiro paras as mesmas coisas de novo e de novo e de novo. As pessoas para quem o apocalipse zumbi virou praticamente o arrebatamento Geek. Pessoas que não mais apreciam os zumbis como objetos de horror por si próprios, mas como alvo de tiro para suas próprias fantasias de poder violentas, que infelizmente é parte da razão pelas qual os zumbis estão parecendo menos e menos com monstros de verdade. As pessoas têm sede de violência, e violência contra outras pessoas — ou coisas parecidas com outras pessoas — parece satisfazer nossos instintos mais feios e primitivos. Nos últimos anos nós presenciamos o nascimento de toda uma subcultura dedicada a “sobrevivência” durante um hipotético apocalipse zumbi. Uma subcultura que deseja ardentemente que a coisa de verdade finalmente aconteça, para que eles finalmente possam mirar seus brinquedos de meninões em alvos humanoides de carne sangue. É ai que está o maior problema do zumbi moderno: ele não é mais tão medonho quanto seus próprios fãs. Nenhum monstro merece tamanha indignidade.

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Eu entendo que eu realmente divaguei aqui, indo de lamentar o design de criaturas repetitivo a criticar a própria psicologia da nossa cultura, mas meus desapontamentos com o entretenimento à base de zumbis são amplos e vários, se multiplicando a cada ano com dúzias de imitações do mesmo filme, do mesmo videogame, do mesmo livro. Felizmente, para cada dúzia de z-day indistinguíveis se arrastando para fora da máquina de cultura pop, alguém faz ao menos uma tentativa de injetar um pouco de sangue coagulado fresco no gênero. Paranormam alfinetou implacavelmente o já mencionado fandom, dentre outras coisas, em uma forma doce e sincera e com uma bela direção artística. O filme Warm Bodies mostra algum promessa, assim como o jogo The Last of Us. Resident Evil, como já discutimos, já passou de sua fase de zumbis tradicionais e buscou fontes mais imaginativas de horror, e eu ainda genuinamente amos a direção a que o escritor David Wellington levou sua trilogia “Monster Island” em 2005. O apocalipse zumbi pode continuar chutando seu cachorro morto pelos próximos anos, mas quando o cachorro morde de volta, ele morde com força.

Pois bem pessoal, por hoje é só. Gostou desse artigo? De uma olhada no site dele,Bogleech, confira seu webcomic interativo, Hospital Terrível (sério, ele é uma droga) ou ajude ele a alimentar suas baratas comprando quinquilharias em sua loja. Quer ver mais desse tradutor de terceira? Dê uma olhadinha em nossa série sobre o folclore brasileiro em D&D, nossas interpretações sobre lovecraft, ou nossas analises do bestiário  do Old Dragon. Achou esse artigo uma m#rda? Tente os artigos de Renan Barcellosdeathaholic, rmrsilva ou Tyghorn. E não perca nenhuma notícia seguindo nosso blog ou curtindo nossa página do face!

Escritor por Jonathan “Scythemantis” Wojcik.

Traduzido por Victor Burgos

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