Dragões Clássicos Arrepiantes – Bogleech no Dados

dragon-gold(Esse artigo foi traduzido do site bogleech com a autorização de Jonathan Wojcik. A versão original se encontra disponível nesse link.)

Na maioria dos cenários modernos de fantasia, a palavra “dragão” costuma implicar uma criatura de puro poder assombroso. Alguns são criatura nobres, benévolas e a até inteligentes, injustamente demonizadas pelas tolas formiguinhas humanas. Outros são representantes feroz, mas magníficos da brutalidade da natureza, colosos estonteantes para quem os humanos são apenas bolinhos gritantes de carne. Eles são símbolos de poder, cavalgados através de furações por princesas guerreiras peladas com espadas flamejantes.

Eles são totais e completas Mary Sues.

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Esse é o mesmo destino trágico que se abateu sobre vampiros, fadas, sereias e o outrora carnívoro unicórnio; o que começou como uma abominação grotesca e medonha da natureza foi romantizada ao ponto em que atualmente ela mal é categorizada com um monstro. Sério, qual foi a última vez que ouviu esse termo usado para descrever um dragão? Eles foram elevados a uma categoria supostamente “acima” da monstruosidade, para animais quase divinos idolatrados por adolescentes mal compreendidos. Agora, mão me leve a mal; o dragão new-age estonteante capa-de-álbum-de-Heavy-Metal tem seu lugar na cultura pop, e pode ser executado de várias maneiras sinceramente legais e divertidas, mas é uma vergonha descartar totalmente o passado mais fantasmagórico do dragão ocidental. Hora de uma lição de arte!

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Pintada na década de 1430, São Jorge e o Dragão de Rogier van der Weyden’s era uma interpretação típica da lenda famosa; o dragão aqui é um eco distante dos titãs de escamas douradas a que estamos acostumados hoje em dia. Ele não é grande. Ele não é glamoroso. Ele definitivamente não é algo que a maioria das crianças desejaria ser quando crescer. Na verdade, ele é digno de pena. Sério, veja esses olhos de cachorro pidão.

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Os valores mudaram o bastante para que a maioria de nós sinta apenas pena desse carinha; ele parece apenas pequeno, fraco, assustado e indefeso. Uma donzela que aparentemente não está em perigo algum observa calmamente um “bravo” cavaleiro atormentar uma espécie em risco de extinção. Nos idos de 1400, todavia, dragões como esse eram usados seriamente — e com sucesso — para evocar repulsão e desprezo da audiência. Mantenha em mente que há pouco tempo atrás compaixão pela vida animal seria considerada algum tipo de doença mental, e antes disso, um sinal de paganismo e bruxaria. Animais que não eram imediatamente úteis de formas imediatamente óbvias — lagartos, sapos, cobras peçonhentas, morcegos, ratos, insetos, basicamente a maior parte da vida como a conhecemos — eram vistos como nada mais que pragas imundas e detestáveis, sendo considerados às vezes até malditos, surgindo de algum modo de fora do plano da criação de Deus.

Isso não é muito surpreendente, na verdade; ninguém tinha uma concepção de ecológica, de como as doenças funcionavam, do porquê de uma mordia da cobra errada podia matar um preciso cavalo de trabalho, e meros camundongos podiam ser a diferença entre uma colheita farta e uma família morrer de fome. Nós olhamos para esse quadro e vemos uma pobre cobra-galinha-tatu sendo molestada por um bárbaro sem coração, mas quando ela foi exposta pela primeira vez, as pessoas viram um herói nobre livrando o mundo de outra afronta obscena à ordem natural.

E isso é muito mais interessante que um dragão que as pessoas querem ser.

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Aqui está outro, pintado por Bernat Martorell na mesma década. O dragão dele ao menos está armado com mesmos posteriores e presas, mas ainda é um bicho pequeno e tosco; um pouco cachorro, um pouco rato. A cauda quase lembra um tentáculo de um polvo, mas é difícil dizer se Rogier teria visto um cefalópode alguma vez na vida. O nariz estranhamente em forma de gancho é interessante; Eu não consigo nem imaginar de que animal ele pode ter vindo. É um pouco mais fácil imaginar esse cara como um produto do “mal”, já que ele ao poderia ao menos teoricamente  destroçar carne humana.

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A representação de 1470 de Paolo Uccello da mesma lenda tem uma besta maior e mais ameaçadora, apesar da expressão da sua face ser de pura submissão e miséria. A suposta “donzela em perigo” também parece ter tudo sobre controle por si só; Eu poderia jurar que ela está apenas descrevendo casualmente a situação ao dragão enquanto ela o leva de coleira para São Jorge o espetar na cara. Brutal. As manchas em forma de olho nas assas são uma característica interessante, já que elas reaparecem de muitas outras pinturas de São Jorge. Eles artistas provavelmente só teriam visto padrões assim nas asas de borboletas e mariposas.

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32 anos depois, Vittore Carpaccio pintou uma das mais sombrias e grotescas representações da vitória de São Jorge, seu dragão canino absolutamente asqueroso rondando uma paisagem arruinada e pestilenta, cheia dos restos mutilados de presas anteriores. Ainda não há pilhas resplandecentes de tesouro aqui; apenas corpos meio mastigados e cabeças decepadas apodrecendo.

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A visão de Giorgio Vasari, de 1550, é similarmente sombria. Ela é mais de cem anos mais nova que nossos exemplos anteriores, mas o conceito do dragão não mudou tanto assim. Esse mutante peludo, com orelhas de burro e pernas de peru ainda tem a mais tristonha e patética de todas, apenas adicionando ao horror daquela carcaça humana fantasmagórica. Esse é um dragão que parece que nunca ia parar de chorar… Enquanto ele mastiga sua pele e engole suas entranhas em uma caverna cheia de carcaças e fezes fedorentas. Você pode quase torcer pela morte desse cara, porque ele parece tão angustiado simplesmente por existir.

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Nós finalmente vamos dar um descanso a São George para analisar só mais alguns pesadelos draconianos, começando pela retrato de Hendrick Goltzius mostrando Cadmo vingando seus companheiros caídos, mortos pelo que tem que ser um dos dragões mais assustadores que vamos analisar aqui. Eles olhos de peixe sem pálpebras e escamas faciais convulsas parecem bastante anômalas em seu corpo mamífero magro, e até sobre ataque, ao menos uma cabeça continua apenas roendo vorazmente os restos sanguinolentos do que outrora foi a cabeça de um homem. Esse não é um dragão simpático, intencionalmente ou não. Ele tem uma fome cega, alienígena, e realmente passa a impressão de que não deveria existir.

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Ironicamente, essa imagem do Arcanjo Miguel mantando o que parece ser o próprio satanás em forma de “dragão” talvez seja o dragão mais fofinho desde o primeiro. Como vocês podem olhar nesses olhos gigantes, chorosos, notavelmente parecidos com os de uma libélula, e não sentir um desejo de afagar a cabecinha peluda da pequena Nêmesis de toda humanidade? Eu não tive muita sorte procurando o artista por trás dessa obra, o nome dele provavelmente está perdido para a história; essa é outra ilustração feita em torno de 1440, aparecendo no manuscrito do Livro das Horas. Dragões eram comumente considerados com sendo metáforas do diabo, apesar desse “dragão” diabólico não ter asas, um pescoço alongado ou qualquer outra característica que atualmente é estereotípica dessas criaturas.

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Outra imagem que eu estou tendo dificuldades para pesquisar ou atribuir apropriadamente, esses talvez sejam meus dragões medievais favoritos até agora, e os únicos que eu já vi cobertos de olhos. Com oito pernas, caudas enroladas e duas cabeças, eu quase poderia acreditar que essas são interpretações grosseiras de grandes escorpiões, o que de qualquer maneira nem faria deles a representação medieval mais incorreta de animais reais. E também aprecio como cada cabeça está usando uma coroa. Todos eles são rei e rainha.

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O último dragão com que eu quero incomodar vocês vem de ninguém mais que o bom e velho Salvador Dali. É outra pintura “São Jorge e o Dragão”, mas tão recente quanto 1942, e ainda nós dá uma monstruosidade digna de pesadelo, colorida mas doentia, mais um peru-infernal obscenamente distorcido do que uma fera puramente reptiliana, não que o cavalo de São Jorge seja menos perturbador. Há menos de cem anos atrás, dragões não-naturais e grotescos aparentemente ainda eram populares… Então, o que aconteceu?

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Eu suponho que seja compreensível que depois de séculos de ratos-lagartos deformados, doentios e roedores-de-donzelas vindos das profundezas do inferno, as pessoas tenham se cansado do conceito. Às vezes se inspirando em criaturas superficialmente parecidas com dragões de culturas muito diferentes, o dragão moderno ainda pode ser um vilão formidável, mas quando ele não é uma fantasia de poder casca-grossa, é um ajudante fofo para magos e pôneis falantes. Dragões agora quase invariavelmente tentando ser admiráveis, mesmo quando eles são antagonistas, e se por um lado é legal que repteis gigantes não sejam mais considerados repulsivos, eu às vezes sinto que fomos longe demais nessa direção. Eu sinto saudade do dragão repulsivo.

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Não tem nada de errado com o dragão majestoso, a lá fantasia heróica, não; eu me diverti com muitos deles ao longo dos anos. Eu apenas acho que ainda há muito espaço na nossa cultura pop para o tipo de dragão que rasteja e espreita, soprando gases tóxicos dos seus pântanos estagnados e tuneis cobertos de sujeira. Hoje em dia dragões ainda são usados para suspense, mas nunca para horror, eu creio que seu passado menos glamoroso demonstra quanto potencial eles sempre tiveram, e ainda deveriam ter, para se encaixar perfeitamente na categoria monstro.

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Pois bem pessoal, por hoje é só. Gostou desse artigo? De uma olhada no site dele, Bogleech, confira seu webcomic interativo, Hospital Péssimo (sério, ele é uma droga) ou ajude ele a alimentar suas baratas comprando quinquilharias em sua loja. Quer ver mais desse tradutor de terceira? Dê uma olhadinha em nossa série sobre o folclore brasileiro em D&D, nossas interpretações sobre lovecraft, ou nossas analises do bestiário  do Old Dragon. Achou esse artigo uma m#rda? Tente os artigos de Renan Barcellosdeathaholic ou Tyghorn. E não perca nenhuma notícia seguindo nosso blog ou curtindo nossa página do face!

Escritor por Jonathan “Scythemantis” Wojcik.

Traduzido por Victor Burgos

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