1d20 Monstros do Folclore Nacional que Você já Usou na Sua Mesa e Não Sabia (Parte 2)

Olá, prezados leitores! Como prometido, hoje no dados malditos vamos ter a segunda parte da nossa série sobre criaturas do folclore brasileiro que você usou na sua mesa e não sabia. A pedidos populares, mudamos um pouco o padrão de apresentação: vamos apresentar menos lendas nesse post, mas em compensação vamos explorar elas mais a fundo, e dar mais sugestões de como as usar de forma criativa em sua mesa.

11. e 12. Iara (Merfolk) e Ipupiara (Merrow)

Eu disse isso antes, e repito: mitos mudam. Lendas se misturam, são meio esquecidas, se dividem, são mal interpretadas… Em última analise, todas as lendas não são tanto uma marca do passado quanto um reflexo do presente. Mas porque eu estou dizendo isso, você pergunta? Veja só, as Iaras não são um mito indígena, por incrível que pareça.

Ipupiara1

Os povos indígenas do brasil não possuíam uma lenda sobre uma mulher-meio-peixe que ficava seduzindo pescadores para o fundo do rio. Mas eles tinham algo parecido: o Ipupiara, uma temível criatura marinha que devorava homens. Quando os colonizadores europeu chegaram, o mito do ipupiara se confundiu com o da seria – que por si só já é uma mescla das nereides/tritões e as sereias-pássaro da mitologia grega.

Metaforicamente, algo mais ou menos assim:

Português: Ipupii… Ipi… Iara?

Índio: Sim, o Ipupiara é um monstro marinho terrível, cauda de peixe, tronco de homem e…

Português: Ah, saquei, uma sereia.

Índio: Não, você não está entendendo, o Ipupiara é…

Português: Saquei, uma sereia.

Índio: Olha, só porque um bicho vive na água não quer dizer que ele seja uma se…

(O português põe uma pistola na cara do índio)

Índio: É isso mesmo chefe, ipupi…

Português: Iaras.

Índio: Iaras são mesmo serias!

Voltando ao assunto, temos duas raças de criaturas marinhas: a belas iaras e os monstruosos ipupiaras. Seria tentador seguir a lógica de D&D e simplesmente colocar as Iaras como as rivais/parentes boazinhas (e bonitinhas) dos Ipupiaras, no melhor estilo Merfolk Vs. Merrow ou Elfos Aquáticos Vs. Sahuagin.. Mas francamente, nosso folclore merece algo mais complexo.

A propósito, vocês conhecem o projeto Batalha de Mitos? Ilustração de Acentauric.

A propósito, vocês conhecem o projeto Batalha de Mitos? Ilustração de Acentauric.

Minha sugestão é a seguinte. Os Ipuiaras são uma raça monstruosa totalmente independente da humanidade, criada quando um povo de navegantes foi “abençoado” por alguma entidade aquático primitivo. Desde então os ipupiaras passam a maior parte da sua vida caçando sozinhos em regiões ribeirinhas ou litorâneas usando sua força bruta e um pouco de magia. Eles não são especialmente malignos, mas tão pouco tentam controlar sua natureza predatória: um ipupiara faminto é uma ameça a qualquer humanoide.

Apesar disso, Ipupiaras têm um interesse notável nos humanos, cobiçando qualquer artefato deles. Algumas comunidades pesqueiras chegam a fazer pactos com essas criaturas, trocando ferramentas e artesanato por peixes. Ainda mais curiosamente, os Ipupiaras tendem a se enamorar com humanos. De tempos em tempos, normalmente em períodos de festa, dessas criaturas nadam até uma vila costeira, usa sua magia para tomar a forma de um homem ou mulher vestido de branco e seduzem jovens locais. Esses encontros geram crianças hibridas, aparentemente meio peixe, meio mulher, chamadas de Iaras.

A maioria das Iaras vive uma existência solitária. Como elas não tem a força bruta ou resistência dos Ipupiaras elas não são capazes de sobreviver no mar aberto, e tem que se contentar em viver em rios, perto de aldeias e vilas.

Infelizmente, os Ipupiaras nunca se responsabilizam pelas crias desses encontros — não é da natureza deles cuidar dos próprios filhotes. Pais fogem imediatamente, e mães abandonam as crias em vilas próximas após um curtíssimo período de amamentação.

Iaras nascidas de mães humanas não costumam ter sorte melhor. A maioria das famílias vê uma gravidez fora do casamento como algo vergonhoso, ainda mais quando o pai sequer é humano. Muitas Iaras são simplesmente abandonadas em orfanatos ou forçadas a viver em uma reclusão quase perpetua. Mesmo as poucas que são assumidas como membras da suas famílias tem que enfrentar os preconceitos (por vezes, exploração) e desafios impostos por sua forma anfíbia. A unica vantagem delas é a inclinação à magia herdada dos pais.

A questão delas serem, até aonde a maioria das representações vai, femininas pode ser tratadas de três formas.

A primeira é simplesmente ignorar a questão é por iaras machos. A segunda é dizer que iaras machos, ao invés de serem homens-peixe, são homens-cobra, uma tradição existente na amazônia. A terceira é dizer que todas as iaras parecem fêmeas.

Estamos acostumados a pensar que os homens são a forma “padrão” da humanidade, ou que homens e mulheres são igualmente representativos, mas a verdade é que as mulheres é que são a forma “normal”. Todos os embriões humanos começam sendo do sexo feminino, é apenas a presença de testosterona e alguns genes do cromossomo Y que fazem que um feto ganhe a forma masculina. Talvez a hibridização humana-ipupiara impeça esse processo de ocorrer, fazendo com que todas as Iaras — inclusive as geneticamente masculinas — nasçam com a ser fêmeas.

Na mesa, os Ipupiaras são o encontro aleatório tipico, o monstro que está aterrorizando a região. já as Iaras podem ser um npc bastante interessante – uma guia pelo rio, uma bandida que usa magia para roubar os outros ou quem sabe uma contratante em busca de uma “cura” para sua sina. Se você quer algo mais sustancioso, pode dizer que um grupo delas se juntou, entrou no modo amazona, e está sequestrando pessoas.

Opcionalmente, as Iaras podem ser representadas pelos elfos aquáticos, e os Ipupiaras pelos sahuagins.

  1. Jericoacoara (Yuan-ti)

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Outra lenda com raízes portuguesas. Essa história é especialmente interessante porque é quase uma aventura já pronta. Permita-me explicar.

Reza a lenda que em algum lugar debaixo do farol da praia de Jericoacoara há uma passagem secreta. Se você engatinhar até o fim dela – por que a passagem é pequena demais para um adulto caminhar – você vai se deparar com um portão de ferro, aparentemente impossível de abrir. Para além desse portão há uma cidade perdida, de torres douradas e com mais riquezas que a mente humana pode compreender, governada por uma princesa encantada. E por encantada, entenda-se transformada em uma serpente descomunal, lhe restando apenas a cabeça e os pés como atestado de humanidade. Assim como em tantos contos de fada, aquele que quebrar o encanto e a transformar de volta vai se casar com ela e se tornar senhor de todos os tesouros do reino subterrâneo.

E como eu faço para abrir o portão e desencantar essa princesa, você pergunta?

Bem, veja como são as coisas. Um mero beijo, ato de amor ou feitiço não é forte o bastante para quebrar os encantamentos. A chave para abrir os portões de  caminho até a gruta e quebrar o encantamento da princesa é o sacrifico humano. Para abrir o portão de ferro é necessário sacrificar alguém na frente dele. Depois, o suposto herói deve usar o sangue do infeliz para pintar um cruz no dorso da serpente-princesa, que então voltara a forma humana e casará com seu salvador.

Bem. Não sei quanto vocês, mas usar sacríficos humanos como chave da garagem/limpador de maquiagem não me soa muito leal e bom… Então ai vai minha sugestão para uma aventura inspirada em Jericoacoara.

Princesa de Jericoacoara: mais leal e boa impossível.

Princesa de Jericoacoara: mais leal e boa impossível.

Escondida debaixo de uma cidade costeira, há uma masmorra povoada por yuan-tis, o povo-cobra icônico de D&D. Essas criaturas terríveis dominam secretamente, por meio de espiões e ilusões, todas as vilas próximas, usando seus habitantes como escravos e gado. Eles não tem nenhum culto secreto na cidade, mas quase todos os pescadores da região contam histórias de serpentes gigantescas e desaparecimentos horripilantes. Lendas sobre a cidade perdida circulam livremente, e de vez em quando um curioso até acha a passagem secreta e chega à cidade perdida… Apenas para sofrer uma lavagem cerebral mágica e virar um servo do povo serpente. Quando um grupo de aventureiros – seu grupo – passa pela cidade, os espiões yuanti-ti se interessam por eles, e começam a bolar um plano para roubar seus tesouros e usa-los como sacrifícios a seus deuses malignos…

Via conceptopolis

Via conceptopolis

Se você quiser algo mais curto, basta dizer que a cidade na verdade é apenas um yuan-ti guardando alguns tesouros do seu povo.

Opcionalmente, o povo de Jericoacoara pode ser representado com nagas espirituais. Ou, se você levar a sério esse papo que ter que fazer dois sacríficos humanos toda vez que você sai para comprar pão é coisa do bem, eles também podem ser representados pelas nagas guardiãs ou pelos coualts.

  1. Loira do Banheiro (Banashee)
Por Tiagokogi

Por Tiagokogi

Vamos lá, quem aqui nunca ouviu essa história? O que, você ai atrás nunca ouviu falar dessa história? Bem, veja só, essa lenda é simples. Uma mulher loira é morta em um banheiro e passa a assombrar ele. Ainda na nossa linha de lendas brasileiras-só-que-não, a loira do banheiro provavelmente nasceu como uma adaptação da lenda da Blood Mary.

Ok, vou fazer uma confissão aqui: eu não gosto de fantasmas. Sei lá. Pense comigo: o que é um fantasma senão um humano que não pode te ferir? As únicas vezes em que eu fiquei com medo fantasmas em um filme/livro/jogo foram quando os autores davam formas estranhas para eles e/ou os usavam para sugerir além-vidas mais medonhos que o de costume. Mas eu divago.

Na mesa, Loira do Banheiro funciona muito bem como um gancho de aventura. Basta por os aventureiros para investigar relatos de assombrações no banheiro de um castelo/escola de magia. Dai eles encontram essa assombração e assumem a obrigação de desvendar o assassinato dela. E se você quiser algo mais cômico, basta dizer que o personagem do jogador foi atacado pela loira do banheiro quanto estava no banheiro da taverna.

Pensando bem, retiro o que eu disse. A Loira do Banheiro é mesmo medonha. Tem um pós-vida mais atroz do que ficar preso a um banheiro de um barzinho por toda eternidade?

A murta que geme realmente estava reclamando de barriga cheia.

A murta que geme realmente estava reclamando (gemendo?) de barriga cheia.

Em teoria, essa criatura poderia ser representada com facilidade por qualquer morto-vivo incorpóreo, mas a Banashee, pela sua natureza feminina, parece ser o candidato mais adequado para representar essa assombração. Então, sim, Elfa do Banheiro é um nome valadio.

  1. Lobisomem (Lobisomem)

Duh. Mas falando sério, o lobisomem brasileiro é uma besta muito diferente da fera que domina o rpg.

Pense menos nisso...

Pense menos nisso…

O lobisomem brasileiro não é um cara musculoso (ocasionalmente, uma mulher peituda) que pode virar um super-lobo para lutar contra “o sistema” da forma mais hollywoodiana possível. Ele não também não é o predador alpha imponente que domina a fantasia urbana. Ele não é sequer a figura trágica dos filmes clássicos. Esqueça monstros fortes, protagonistas melancólicos, guerreiros da natureza, luas cheias, prata, esqueça tudo que você sabe sobre homens-lobo. Não, o lobisomem brasileiro não é um herói, um predador, ou sequer uma vitima: ele é uma praga.

Em sua forma humana, o lobisomem é uma pessoa magricela e pálido, uma figura cuja sua fragilidade só é superada pela sua crueldade. Sim, porque o lobisomem brasileiro não é tanto uma pessoa que vira um monstro, quanto um monstro que passa a maior parte do tempo fingindo ser humano. Ele muitas vezes escolhe suas vitimas futuras – e até bola armadilhas para elas – nessa forma.

... E mais nisso.

… E mais nisso.

Toda noite de sexta (ou terça, a depender da lenda) o licantropo assume sua verdadeira forma: uma criatura suja, miserável, podre de todas as mazelas e amarelo de todas as doenças, que lembra mais uma mistura de porco e cão que um hibrido de lobo e homem. Ele então vaga pelas redondezas, caçando almas desprevenidas na calada da noite. Ninguém está seguro dessa fera, mas ele raramente ataca homens adultos. Homens tem carne dura, são perigosos. Ele prefere as presas fáceis, prefere as carne macias das jovens, prefere o sabor doce do sangue de crianças. Ele tem que tomar cuidado. o lobisomem brasileiro pode ser ferido e morto com armas comuns, e os santos – especialmente aqueles ligados à saúde – tem poder contra ele.

Ninguém sabe exatamente como essa licantropia é transmitida. Há a lenda do sétimo filho, mas diversos casos fogem a essa regra. Alguns já nascem doentes e pálidos, apenas para irem apodrecendo até virar um monstro quando crescem. Outros só começam a assumir a vocação de lobo quando estão mais velhos. A doença costuma afligir os ricos. Há relatos de lobisomens tentando se curar em estágios iniciais da doença, mas o remédios para esse mal é atroz: figado de crianças.

Na mesa, o lobisomem pode ser um vilão terrível. Os aventureiros podem encontrar um lobisomens investigando casos de desaparecimentos na cidade. Lobisomens especialmente sagazes podem até contratar os aventureiros para lutar contra caçadores.

Pois bem pessoal, por hoje é só. Gostou desse artigo? Dê uma olhadinha em nossa série sobre o folclore brasileiro em D&D, nossas interpretações sobre lovecraft, ou nossas analises do bestiário  do Old Dragon. Achou esse artigo uma m#rda? Tente os artigos de Renan Barcellosdeathaholic ou Tyghorn. E não perca nenhuma notícia seguindo nosso blog ou curtindo nossa página do face! E se você gosta de ver o folclore nacional na mesa, dê uma olhada no projeto Batalha de Mitos!

Victor Burgos

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