Bestiário Old Dragon de A(asimar) a Z(umbi): Abbadon

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(Esse post pertence à série “Bestiário Old Dragon de A(asimar) a Z(umbi)”, que visa analisar cada uma das criaturas presentes nesse Rpg)

Não se deixe enganar pelos texto e ilustração discretos: esse filho da mãe é o bicho mais casca grossa que você vai encontrar no inferno de Old Dragon.

Abaddon é basicamente o equivalente Old Dragon do Asmodeus de D&D. “Cuma?” pergunta o leitor. Deixe-me explicar: na complexa, confusa, instável, variável e às vezes paradoxal mitologia de D&D, Asmodeus é o senhor absoluto dos Nove Infernos/Baator.

Ou seja, uma criatura perfeita para mestres que querem um chefão definitivo ou uma forma matar todos os seus jogadores, mas acha que os dragões já deram o que tinha que dar, enjoou de liches, precisa de algo mais esperto que o Tarrasque e está cansado de discutir na mesa qual a pronuncia correta de Cthulhu.

Visualmente, Abaddon é basicamente um diabão clássico. Pês de bode, asas de morcego “negras de puro terror”, chifres, rabo com ponta triangular, você conhece o esquema. Mas para não dizerem por ai que fui injusto, aos menos ele possui uma coloração sombria ao invés de vermelha, e seu rosto desprovido de nariz ou lábios possui um qualidade cadavérica adorável. Um lado meu se lamenta pelo artista não ter optado por uma rota mais exótica, mas por outro lado, essa forma humanoide possui algumas… Bases.

Mecanicamente Abbadon faz jus à sua fama. Contanto com trocentos pontos de vida com direito a regeneração, resistências avacalhadamente altas acompanhadas de uma tuia de imunidades, a habilidade de conjurar magias arcanas e divinas, a capacidade de impor medo a todo mundo ao redor sem direito a nenhum save ou outra frescura do tipo  e ataques que batem como um caminhão em chamas que está sendo usado como um porrete por um caminhão maior ele é, tirando talvez os dragões metálicos anciões, a criatura ordeira mais poderosa de todo o bestiário.

(Inclusive, gostaria de fazer uma pausa para ressaltar que o mundo de Old Dragon é uma droga. Sério, tente imaginar quão horrível deve ser a vida em uma terra onde os campeões da ordem, neutralidade e caos são, respectivamente, o Senhor do Inferno, o Tarrasque e Cthulhu.).

Abaddon não é um monstro, é um recurso de narrativo, uma ferramenta que o mestre usa para acabar a campanha. Vocês não vão matar ele a não ser que seu mestre tenha A. Criado regras para níveis épicos. B. Itens mágicos além de qualquer coisa no livro básico C. Algum ritual para enfraquecer o senhor do inferno. Ou D. Uma regra que permitisse vocês levarem alguns dragões metálicos para a batalha (ou E. vocês descobriram/inventaram alguma gambiarra para matar ele. Mas eu recomendo evitar isso. Os mestres que entopem a mesa de encontros fortes para incentivar a “criatividade” são os que mais ficam fulos quando você arruma uma maneira de pôr o tarrasque em coma com uma vela e umas pás.)

Aventureiros, nem pensem em enfrentar esse cara em condições normais. Porque senão vocês se verão em uma daquelas lutas superdivertidas onde o bicho só erra vocês se tirar um no dado e vocês só o acertam no vinte. Dados Malditos em sua melhor/pior forma, senhoras e senhores.

Além dessas mecânicas ofensivas, a ficha de Abaddon possui mais duas características notáveis. A primeira delas é a “Visão na Penumbra e no Escuro”, que segundo o bestiário tem um alcance “infinito” — possivelmente sugerindo que o senhor do inferno tem uma forma branda de onisciência. A outra é que Abaddon usa empunha uma espada vorpal +5. “E o que tem demais nisso?”, você pergunta.

Bem, veja só. No Old Dragon os itens mágicos são ligados a um dos três alinhamentos. E as armas vorpais são consideradas inerentemente caóticas. Não é um pouco estranho que o campeão da ordem use itens que vão contra sua natureza? Como se não bestasse, as armas vorpais também possuem aqui uma caraterística perigosa. Elas decapitam um inimigo em um acerto critico, mas em compensação matam o seu portador em uma falha critica. A primeira vista pode ser tentador ignorar essas contradições, mas acho que tenho uma explicação para elas. Mas primeiro temos que analisar a mitologia por trás desse cara.

(Ah, além disso o livro básico de Old Dragon diz que as armas mágicas são limitadas a um bônus de +4. Então você quer um antecedente para seu personagem empunhar uma arma-deus que dá 2d12+6 de dano, aqui está ele.).

Abaddon é uma palavra hebraica que significa “Destruição”. Na bíblia, ela é usada para se referir a dois conceitos distintos.

No antigo testamento, Abaddon é usado junto com o termo “Sheol” para designar a terra dos mortos. O livro não entra em detalhes sobre a divisão entre esses dois lugares, mas no geral o Sheol está mais ligado à ideia de tumulo ou morte, ao passo que Abaddon remete ao de destruição. Talvez o Sheol seja o lugar onde os mortos repousarão até o fim dos tempos, enquanto Abaddon será o lugar onde os pecadores serão destruídos após o juízo final.

No novo testamento — mais especificamente no livro da revelação — Abaddon é o nome de um anjo abissal, também chamado de Apollyon, que é descrito como sendo o rei de um exército de gafanhotos. Ele é interpretado como sendo o diabo, o anticristo, um anjo a serviço do senhor, o mesmo o próprio Jesus depois da ressureição.

Indo para fontes apócrifas, os manuscritos do mar morto falam do “Sheol de Abaddon” e das “Torrentes de Belial que explodem em Abaddon”. Eles também o classificam como sendo uma parte da Gehenna, do Submundo — um conceito compartilhado por algumas tradições orais.

No gnosticismo Abaddon normalmente é visto como sendo um demônio, mas algumas tradições divergem. Sendo uma delas, Abbadon, orginalmente chamado de Muriel (“Rancor”, “Rebelião” ou “Perfume de Deus”) foi o anjo incumbido com a tarefa de juntar a terra para a criação de Adão, sendo depois transformado em um guardião temido por toda criação. Também era tido que aqueles que o venerassem em vida poderiam ser salves, e que ele teria um papel importante no juízo final.

Essas visões podem soar como incompatíveis, mas há uma maneira de ligar elas e ela está na obra do profeta/teólogo Swendeborg. Segundo ele, o inferno é um lugar muito diferente do que estamos acostumados a pensar. Eu poderia facilmente passar o resto do artigo expondo toscamente as ideias dele, que sugerem um inferno ao mesmo tempo mais atroz e razoável que qualquer outro que eu conheça. Mas em nome do espaço, vamos aos quatro conceitos mais relevantes no momento.

Segundo Swendeborg o inferno tinha a forma geral de um demônio. Inclusive, os demônios era almas penadas que perdiam sua humanidade. Ele, por fim, não tinha um líder fixo; os candidatos a senhores das profundezas acabavam sendo ou depostos ou consumidos pelas fantasmagoricidade do seu reino. Por fim, o abismo estava ligado ao paraíso, sendo um reflexo dele. A máxima “Melhor reinar no inferno do que servir no céu” simplesmente não se aplicava: reinar no inferno era servir o céu.

Aonde eu quero chegar com isso? Simples, Abaddon não é uma criatura é um posto. A escalada de uma alma da lêmure até senhor das profundezas e mais que um acumulo cego de poder. Em sua evolução diabólica um espiro aos poucos se torna uma imagem viva da própria terra dos mortos. Antigamente, antes da corrupção do além (vide o artigo do aasimar) esse processo era benigno, mas agora ele só produz monstros.

Isso explica porque Abaddon, que é tanto uma criatura quanto um lugar, rei e reino em um só, possui características caóticas. O céu primordial foi corrompido, e é claro que ele foi afetado. Por isso a atitude solitária, por isso a arma vorpal.

Essa é a grande tragédia do inferno. O que no passado foi um lugar de redenção e punição agora se transformou em uma terra de destruição cega, um equivalente cósmico de uma doença autoimune. Ele não existe para ajudar ninguém, nem mesmo os que os servem. Ele só quer destruir tudo, purificar a criação até o pó. Os diabos só ganham poder porque isso lhes permitem servir melhor, e quanto mais poderoso, pior.

Isso lança um novo olhar sobre a aura de medo emitido por Abaddon. Asas negras de puro terror. Mas terror de quem?

O que pode ser terrível o bastante para assustar o próprio inferno encarnado?

Pois bem, pessoal por hoje é só. O que acharam do texto? Tem suas próprias teorias? Já usaram Abaddon em usas mesas? Dividam suas experiências nos comentários! Ah, e não se esqueça de nos seguir para nunca perder nenhum post!

Por Victor Burgos

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